Pesquisa do Insper e da Stone acompanhou milhões de clientes e encontrou piora em indicadores financeiros nos 12 meses após a primeira aposta
Começar a apostar em plataformas de apostas online está associado a uma piora em indicadores da vida financeira dos usuários, segundo um estudo conduzido pelo professor Sérgio Firpo, do Insper (Insper Instituto de Ensino e Pesquisa), em parceria com pesquisadores da Stone.
A pesquisa comparou pessoas que fizeram a primeira aposta online com indivíduos de perfil semelhante que ainda não haviam apostado. Nos 12 meses seguintes ao início das apostas, a proporção de pessoas em situação de inadimplência ficou, em média, 20% maior entre os novos apostadores, em comparação com a evolução registrada no grupo de controle.
O estudo também identificou aumento nos atrasos das faturas de cartão de crédito. A fração da fatura em atraso cresceu, em média, 38,7% no primeiro ano após o início das apostas, também considerando a diferença em relação ao comportamento de pessoas que não apostavam.
Crédito disponível também diminuiu
Outro resultado apontado pela pesquisa foi uma redução no acesso ao crédito. O limite disponível para empréstimos caiu, em média, 16% depois que os participantes começaram a apostar, descontada a evolução geral do crédito na economia.
Segundo Rômullo Carvalho, economista da Stone e um dos autores do trabalho, a dimensão dessa redução é semelhante à observada em estudos sobre o impacto da perda de emprego sobre o acesso ao crédito.
Parte dos apostadores compromete parcela significativa da renda
Os dados também mostram que uma parcela dos usuários direciona uma quantia elevada de dinheiro para as plataformas. Um em cada dez apostadores envia às bets mais de 20% de tudo o que sai de sua conta bancária em um mês.
Para Sérgio Firpo, esse comportamento pode ajudar a explicar o aumento da inadimplência, já que o dinheiro transferido para as plataformas deixa de estar disponível para outras despesas e compromissos financeiros.
A pesquisa utilizou dados de movimentações bancárias e transferências via Pix de milhões de clientes da Stone, além de informações do Banco Central. Os pesquisadores conseguiram identificar pagamentos destinados tanto a plataformas legalizadas quanto a sites ilegais de apostas.
Estudo ainda não passou por publicação científica
Apesar dos resultados, há uma ressalva importante: o trabalho “Online Betting and Financial Distress: Evidence from Brazil”, ou “Apostas Online e Dificuldades Financeiras: Evidências do Brasil”, ainda não havia sido publicado em uma revista científica no momento da divulgação.
Além disso, os próprios dados indicam que a relação entre apostas e dificuldades financeiras pode funcionar nos dois sentidos. A pesquisa encontrou evidências de que algumas pessoas podem começar a apostar justamente após enfrentar dificuldades financeiras, o que significa que o endividamento não deve ser interpretado exclusivamente como consequência das apostas.
Fontes consultadas
Folha de S.Paulo: reportagem que divulgou os resultados do estudo e entrevistou os pesquisadores.
BNLData: utilizado para conferir os principais números e a ressalva sobre a metodologia e o fato de o artigo ainda não ter sido publicado em revista científica.
Jornal de Brasília: utilizado para confirmar os dados sobre a metodologia e os indicadores de inadimplência e cartão de crédito.