Dora Sanches é indicada ao Grammy Latino e fala ao Hoje Cidades sobre carreira, MS e o sonho de representar novas sonoridades
antora campo-grandense concorre na categoria Melhor Artista Revelação e vê indicação como confirmação de uma trajetória construída com liberdade e identidade
Por Vinicius Nunes De Andrade
Publicado em 19/09/2026 11:05
Entretenimento

A cantora e compositora sul-mato-grossense Dora Sanches vive um dos momentos mais importantes de sua carreira. Natural de Campo Grande, a artista foi indicada ao Grammy Latino na categoria Melhor Artista Revelação, reconhecimento que chega após o lançamento de seu primeiro álbum, Seda de Casulo.

O disco representa uma fase de transformação na trajetória da cantora e aborda temas ligados ao amadurecimento, à descoberta e à necessidade de seguir a própria intuição.

Para Dora, a indicação ao Grammy Latino tem um significado ainda maior justamente por acontecer depois de um trabalho que fala sobre sair do próprio casulo.

Em entrevista exclusiva ao Hoje Cidades, a cantora falou sobre a emoção de receber a indicação, sua relação com Mato Grosso do Sul, a construção de sua identidade musical, a formação em produção musical e os planos para o futuro.

 

Em um Estado cuja música é frequentemente associada ao sertanejo, Dora também destaca a diversidade da produção cultural sul-mato-grossense e defende que outros artistas possam encontrar seus próprios caminhos.


Confira a entrevista:

Hoje Cidades — Como você recebeu a notícia da indicação ao Grammy Latino e em que momento caiu a ficha?

Dora Sanches: Eu ainda estou sem acreditar. Recebi a notícia na quarta-feira, assim que acordei, e comemorei muito com a minha mãe. Mas a ficha ainda não caiu. Acho que só vai cair mesmo quando eu chegar lá, no dia da celebração.

Hoje Cidades — Existe uma relação entre o significado de Seda de Casulo e o momento que você está vivendo agora?

Dora Sanches: Acho muito simbólico essa indicação acontecer justamente depois do lançamento de um álbum que fala sobre sair do casulo. Para mim, essa indicação também é um incentivo, uma confirmação de que ouvir o meu próprio coração e a minha intuição é o caminho que eu quero seguir.

É uma confirmação de algo que eu já venho tentando construir há muitos anos na minha carreira. Para o público, talvez esse seja um momento de descoberta e reconhecimento do meu trabalho, mas, para mim, existe uma história muito longa até chegar aqui.

Hoje Cidades — Quando você percebeu que a música poderia realmente se tornar sua profissão e sua identidade?

Dora Sanches: Quando eu era criança, eu já costumava dizer que seria cantora. Eu não venho de uma família de músicos, mas tenho uma tia-avó que canta lindamente e que me incentivou muito. Denia, eu a chamo de vó. A gente cantava juntas, principalmente músicas da igreja.

Então acho que, dentro de mim, isso sempre foi uma certeza. Antes mesmo de entender o que significava ter uma carreira, eu já sabia que queria cantar. E hoje fico muito feliz de ter seguido o meu coração.

Hoje Cidades — Você sente que está mostrando uma outra possibilidade musical para Mato Grosso do Sul?

Dora Sanches: Acredito que a música sul-mato-grossense é muito maior do que aquilo que normalmente é exportado para o Brasil e para o mundo. Vejo amigos e artistas que admiro criando seus próprios caminhos e fazendo músicas muito diferentes entre si.

Durante muito tempo eu também ouvi que, para fazer música em Mato Grosso do Sul, teria que seguir um determinado caminho. E espero que essa indicação possa ser uma luz para outros artistas do nosso Estado que também sonham em trilhar outros caminhos musicais além daqueles que, muitas vezes, nos são apresentados como únicos.

Existe uma cultura muito rica sendo feita todos os dias, e essa cultura também é escrita pelos pequenos artistas — que, de pequenos, só têm as oportunidades.

Hoje Cidades — Quanto de Campo Grande e de Mato Grosso do Sul ainda existe em você?

Dora Sanches: Acho que a gente leva no coração muito da terra de onde veio. Eu me identifico muito com Manoel de Barros, com esse olhar para as coisas pequenas, e, de alguma forma, ainda me sinto aquela menina que cantava dentro de casa sonhando em ser artista.

Mato Grosso do Sul está nas minhas referências, na minha maneira de olhar o mundo e também na minha paixão pela música, pelo violão de aço, por determinados sons que me remetem à minha terra. A gente pode ir para muitos lugares, mas nunca sai completamente do lugar de onde veio.

Hoje Cidades — Sua formação em produção musical mudou a maneira como você cria?

Dora Sanches: Com certeza. Estudar produção musical me deu mais autonomia e, principalmente, vocabulário para conseguir explicar aquilo que eu escuto dentro da minha cabeça.

Na composição e na pré-produção, eu me divirto muito através da produção musical, buscando qual é a melhor “roupa” para cada canção: os timbres, os arranjos, a dinâmica, a instrumentação. E acho importante conhecer a linguagem daquilo com que a gente trabalha.

Hoje Cidades — O que você pretende preservar e o que gostaria de transformar daqui para frente?

Dora Sanches: Quero continuar sendo livre para fazer música e, principalmente, preservar a minha curiosidade. Acho que a curiosidade é uma das coisas mais importantes para continuar criando, descobrindo e seguindo em frente artisticamente.

Estou muito contente com o presente. Quero estar nos palcos, quero cantar, conhecer novos lugares e continuar crescendo. Mas quero preservar o meu olhar para o mundo, aquele olhar que eu tinha quando era criança. Quero tentar manter essa criança acesa e viva dentro de mim, porque acho que é daí que vem uma parte muito importante da minha criação.

Hoje Cidades — Se pudesse conversar com a Dora de 13 anos, o que diria para ela?

Dora Sanches: Eu acho que diria para ela que essa teimosia que ela tem é força. Que continue acreditando naquilo que sente, mesmo quando o caminho não parecer tão óbvio para as outras pessoas.

E diria para ela continuar cantando, escrevendo e sonhando. Porque aquela certeza que ela tinha dentro do coração, mesmo tão pequena, ia levá-la para lugares que ela ainda nem conseguia imaginar.

Uma nova etapa

A indicação ao Grammy Latino marca um novo capítulo na carreira de Dora Sanches, mas a própria cantora deixa claro que não pretende abandonar a essência que a acompanhou desde a infância.

Entre a menina que cantava dentro de casa em Campo Grande e a artista que agora vê seu nome entre os indicados ao principal prêmio da música latina, existe uma trajetória construída com persistência, curiosidade e confiança na própria identidade.

Agora, Dora se prepara para viver uma experiência que, segundo ela mesma, ainda parece difícil de acreditar. A ficha, talvez, só caia quando chegar o momento da celebração.

Ouça aqui o último lançamento de Dora Sanches, o álbum Seda de Casulo:

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